As limitações da rede elétrica africana ganham destaque à medida que os mercados regionais avançam rumo à integração
Prevê-se que a procura de eletricidade em África quase duplique para 2 291 TWh até 2050, exigindo um investimento estimado de 30 mil milhões de dólares em infraestruturas de transmissão e rede elétrica para desbloquear e integrar nova capacidade de produção. No entanto, em todo o continente, as redes elétricas têm dificuldade em acompanhar o ritmo da rápida expansão dos projetos de fornecimento e do aumento da procura.
Na Nigéria, as repetidas falhas generalizadas da rede elétrica, ainda em fevereiro de 2026, sublinham a fragilidade das infraestruturas de transmissão envelhecidas. Na África Oriental, falhas nas torres ao longo da linha Loiyangalani-Suswa, com 428 km, bloquearam temporariamente a produção da Lake Turkana Wind Power — a maior instalação eólica de África. Entretanto, as pressões decorrentes do crescimento da procura estão a acelerar em toda a África do Norte, onde se prevê que o consumo de eletricidade aumente cerca de 50 % até 2035, impulsionado pela urbanização, pelos projetos de dessalinização e pelos aumentos de temperatura relacionados com as alterações climáticas.
Apesar destas limitações, o investimento na produção continua a acelerar em toda a África, particularmente em energias renováveis, sistemas de conversão de gás em eletricidade e sistemas híbridos. No entanto, sem um investimento equivalente em transmissão e interligação, grande parte desta nova capacidade corre o risco de ficar subutilizada ou ociosa. Este desequilíbrio crescente entre a produção e a capacidade da rede está a impulsionar um foco mais acentuado no planeamento a nível do sistema e na conceção de mercados regionais — questões que serão centrais na conferência «Power Africa Today», recentemente lançada no âmbito da African Energy Week 2026. A plataforma reunirá decisores políticos, empresas de serviços públicos, investidores e promotores para explorar de que forma a interligação regional, os quadros de comércio transfronteiriço e as estruturas de financiamento podem alinhar melhor o crescimento da produção com a expansão da rede.
Os mercados de energia experimentam reformas
A par dos desafios de infraestruturas, o setor elétrico africano está a passar por uma reforma de mercado gradual — mas desigual. A maioria dos países ainda opera sistemas verticalmente integrados, dominados por empresas de serviços públicos estatais, mas um número crescente está a introduzir quadros competitivos para atrair capital privado e melhorar a eficiência.
O Zimbábue abriu o seu mercado de eletricidade à participação privada total nas áreas da produção, transmissão e distribuição em 2025, com o objetivo de atrair 9 mil milhões de dólares em novos investimentos. A África do Sul está a avançar com um dos programas de expansão da rede mais ambiciosos do continente, com planos para 14 500 km de novas linhas de transmissão e 133 000 MVA de capacidade de transformadores até 2034, a par de mecanismos concebidos para atrair financiamento privado. Entretanto, o Quénia introduziu regulamentação de acesso aberto que permite aos produtores independentes de energia transportar eletricidade diretamente para vários consumidores, redefinindo a forma como os ativos de produção interagem com a rede.
A integração regional continua fragmentada
Os esforços para ligar os sistemas elétricos fragmentados de África estão a avançar, embora a ritmos diferentes consoante as regiões. Na África Austral, o programa RETRADE SAPP do Banco Mundial, aprovado em 2025, está a investir 12 milhões de dólares para reforçar a integração das energias renováveis e a capacidade de transmissão em 12 Estados-Membros. Na África Oriental, a «Autoestrada Elétrica» Etiópia–Quénia–Tanzânia encontra-se agora em fase de operações experimentais com uma capacidade de até 2 000 MW, marcando um passo significativo rumo a uma rede regional mais interligada.
A África Ocidental também está a avançar para uma integração mais profunda, com a sincronização permanente do Pool Elétrico da África Ocidental prevista para 2026. Analistas, incluindo a African Finance Corporation, defendem que essa sincronização é fundamental para desbloquear o potencial hidroelétrico em grande escala e a procura industrial em toda a região. A longo prazo, a sincronização total entre os pools de energia da África Oriental e da África Austral — prevista para o final de 2026 — poderá criar um dos maiores corredores transfronteiriços de comércio de eletricidade do mundo.