07 Jul 2026

As limitações da rede elétrica africana ganham destaque à medida que os mercados regionais avançam rumo à integração

As limitações da rede elétrica africana ganham destaque à medida que os mercados regionais avançam rumo à integração

Prevê-se que a procura de eletricidade em África quase duplique para 2 291 TWh até 2050, exigindo um investimento estimado de 30 mil milhões de dólares em infraestruturas de transmissão e rede elétrica para desbloquear e integrar nova capacidade de produção. No entanto, em todo o continente, as redes elétricas têm dificuldade em acompanhar o ritmo da rápida expansão dos projetos de fornecimento e do aumento da procura.

Na Nigéria, as repetidas falhas generalizadas na rede elétrica, ainda em fevereiro de 2026, sublinham a fragilidade das infraestruturas de transmissão envelhecidas. Na África Oriental, falhas nas torres ao longo da linha Loiyangalani-Suswa, com 428 km, bloquearam temporariamente a produção da Lake Turkana Wind Power — a maior instalação eólica de África. Entretanto, as pressões decorrentes do crescimento da procura estão a acelerar em toda a África do Norte, onde se prevê que o consumo de eletricidade aumente cerca de 50 % até 2035, impulsionado pela urbanização, pelos projetos de dessalinização e pelos aumentos de temperatura relacionados com as alterações climáticas.

Apesar destas limitações, o investimento na produção continua a acelerar em toda a África, particularmente em energias renováveis, sistemas de conversão de gás em eletricidade e sistemas híbridos. No entanto, sem um investimento equivalente na transmissão e na interligação, grande parte desta nova capacidade corre o risco de ficar subutilizada ou ociosa. Este desequilíbrio crescente entre a produção e a capacidade da rede está a impulsionar um foco mais acentuado no planeamento a nível do sistema e na conceção de mercados regionais — questões que serão centrais na nova vertente «Power Africa Today», lançada na African Energy Week 2026. A plataforma reunirá decisores políticos, empresas de serviços públicos, investidores e promotores para explorar de que forma a interligação regional, os quadros de comércio transfronteiriço e as estruturas de financiamento podem alinhar melhor o crescimento da produção com a expansão da rede.

Os mercados de energia experimentam reformas

A par dos desafios em termos de infraestruturas, o setor elétrico africano está a passar por uma reforma de mercado gradual — mas desigual. A maioria dos países ainda opera sistemas verticalmente integrados, dominados por empresas de serviços públicos estatais, mas um número crescente está a introduzir quadros competitivos para atrair capital privado e melhorar a eficiência.

O Zimbabué abriu o seu mercado de eletricidade à participação privada total nas áreas da produção, transmissão e distribuição em 2025, com o objetivo de atrair 9 mil milhões de dólares em novos investimentos. A África do Sul está a avançar com um dos programas de expansão da rede mais ambiciosos do continente, com planos para 14 500 km de novas linhas de transmissão e 133 000 MVA de capacidade de transformadores até 2034, a par de mecanismos concebidos para atrair financiamento privado. Entretanto, o Quénia introduziu regulamentação de acesso aberto que permite aos produtores independentes de energia transportar eletricidade diretamente para vários consumidores, reformulando a forma como os ativos de produção interagem com a rede.

A integração regional continua fragmentada

Os esforços para ligar os sistemas elétricos fragmentados de África estão a avançar, embora a ritmos diferentes consoante as regiões. Na África Austral, o programa RETRADE SAPP do Banco Mundial, aprovado em 2025, está a investir 12 milhões de dólares para reforçar a integração das energias renováveis e a capacidade de transmissão em 12 Estados-Membros. Na África Oriental, a «Autoestrada Elétrica» Etiópia–Quénia–Tanzânia encontra-se agora em fase de operações experimentais com uma capacidade de até 2 000 MW, o que representa um passo significativo no sentido de uma rede regional mais interligada.

A África Ocidental também está a avançar para uma integração mais profunda, prevendo-se a sincronização permanente do Pool Elétrico da África Ocidental em 2026. Os analistas, incluindo a African Finance Corporation, defendem que essa sincronização é fundamental para desbloquear o potencial hidroelétrico em grande escala e a procura industrial em toda a região. A longo prazo, a sincronização total entre os pools de energia da África Oriental e da África Austral — prevista para o final de 2026 — poderá criar um dos maiores corredores transfronteiriços de comércio de eletricidade do mundo.

Construir arquiteturas financeiras viáveis

Embora a interligação esteja a avançar, a infraestrutura por si só não é suficiente para criar mercados de eletricidade atraentes para o investimento. Os investidores referem consistentemente a falta de estruturas de aquisição padronizadas, contrapartes com solvabilidade e garantias de pagamento transfronteiriças como principais barreiras à expansão da mobilização de capital.

Estão a surgir novos modelos para dar resposta a estas limitações. A Africa GreenCo, que opera na Zâmbia, Namíbia e África do Sul, está a ajudar a agregar produtores independentes de energia sob um único intermediário com credibilidade financeira, padronizando os acordos de compra de energia e reduzindo o risco de contraparte. A um nível mais abrangente, a AUDA-NEPAD estima que África necessite de cerca de 30 mil milhões de dólares em investimento adicional para concluir os corredores de transmissão prioritários e estabelecer três blocos comerciais regionais totalmente interligados até 2030.

«Os mercados de eletricidade interligados são a base do futuro industrial de África», afirmou NJ Ayuk, presidente executivo da Câmara Africana de Energia. «A questão na Africa Energy Week não é se a integração é possível — as provas já existem. A questão é saber quais os quadros regulamentares e as estruturas financeiras que permitirão levar os projetos até ao fecho financeiro, e quais os mercados que estarão preparados quando o capital estiver pronto para avançar.»

A sessão «Power Africa Today» decorrerá em paralelo com a AEW 2026, que terá lugar de 12 a 16 de outubro na Cidade do Cabo, e centrar-se-á na arquitetura regulatória, financeira e de infraestruturas necessária para construir mercados de eletricidade interligados, capazes de atrair capital institucional e fornecer energia transfronteiriça fiável em grande escala.

 

 

 

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