Oportunidade inesperada ou incompatibilidade? Como o conflito entre os EUA e o Irão se alinha com o regresso do petróleo venezuelano
O conflito entre os EUA e o Irão provocou um forte aperto nos mercados globais de petróleo, com perturbações no Estreito de Ormuz a limitar os fluxos e a impulsionar os preços para cima. À medida que a incerteza do abastecimento se agrava, os compradores correm para garantir barris alternativos, elevando o valor estratégico dos produtores fora do Médio Oriente. Em teoria, isto cria uma oportunidade quase perfeita para a Venezuela — que possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo — reafirmar-se nos mercados globais. Mas o momento levanta uma questão mais complexa: a recuperação da Venezuela está genuinamente alinhada com esta janela geopolítica, ou a sobreposição é mais uma coincidência do que uma transformação?
A Conferência e Exposição African Energy Week (AEW) 2026 — que decorrerá de 12 a 16 de outubro na Cidade do Cabo — irá analisar precisamente esta dinâmica durante uma sessão de mesa redonda centrada em África e na Venezuela. Com debates centrados no risco geopolítico, na diversificação do abastecimento e no surgimento de produtores alternativos — tanto em África como na América do Sul —, o evento proporciona uma plataforma oportuna para avaliar se o ressurgimento da Venezuela é duradouro ou simplesmente oportunista.
Choques de oferta globais deixam compradores em pânico
O conflito em curso no Médio Oriente colocou os mercados globais de petróleo e gás num estado de volatilidade, com perturbações no Estreito de Ormuz — responsável por 20% do comércio global de petróleo — a colocar em risco até 15 milhões de barris por dia (bpd). O conflito também fez com que os preços do petróleo disparassem 60% em março, para 120 dólares por barril, recuando parcialmente para cerca de 92 a 95 dólares por barril em abril. À primeira vista, isto cria incentivos para que os produtores não pertencentes ao Golfo aumentem as exportações, à medida que as economias fortemente dependentes de importações na Ásia e na Europa procuram fontes alternativas de petróleo.
Em teoria, a Venezuela — com mais de 300 mil milhões de barris de reservas comprovadas de petróleo — poderia beneficiar desta bonança, mas anos de sanções dos EUA e subinvestimento fizeram com que a produção caísse de um pico de três milhões de bpd em 1998 para 900 000 bpd em 2025. Mudanças políticas recentes — incluindo medidas de licenciamento dos EUA que permitem a empresas estrangeiras selecionadas operar ativos venezuelanos — poderiam reverter esta tendência, mas é improvável que isso aconteça no curto prazo.
Como tal, o momento em que ocorre o conflito no Golfo cria uma espécie de desfasamento para a Venezuela. A recuperação petrolífera do país é gradual, enquanto a oportunidade de mercado é pontual. Os compradores não estão a comprometer-se com mudanças de longo prazo nas cadeias de abastecimento; estão a gerir o risco de curto prazo através de aquisições flexíveis. O resultado é uma resposta fragmentada do mercado, em vez de uma reafectação decisiva dos fluxos comerciais globais. Portanto, se as perturbações diminuírem ou se estabilizarem antes de a Venezuela aumentar significativamente a produção, a janela de oportunidade poderá estreitar-se antes de ser plenamente aproveitada.
A recuperação petrolífera da Venezuela ganha terreno — mas as restrições estruturais persistem
Após anos de sanções, a recuperação petrolífera da Venezuela parece estar a avançar na direção certa. Os EUA emitiram a Licença Geral 46A no início de 2026, autorizando entidades norte-americanas a realizar transações necessárias para a extração, exportação, reexportação, venda, revenda, fornecimento, armazenamento, comercialização, compra, entrega ou transporte de petróleo de origem venezuelana. Em abril de 2026, os EUA deram mais um passo, aliviando as sanções impostas ao banco central da Venezuela.
A atividade de mercado também está a aumentar. A Chevron assinou um acordo com a PDVSA da Venezuela para trocar as suas reservas de gás offshore por uma presença mais significativa no Cinturão do Orinoco.
Com o surgimento do conflito no Golfo, os preços elevados do petróleo e a insegurança do abastecimento estão a aumentar o valor geopolítico da Venezuela, particularmente para as refinarias da Costa do Golfo dos EUA e europeias configuradas para petróleo bruto pesado. Isto acontece num momento em que as exportações venezuelanas para os EUA estão novamente a ganhar força. Dados recentes de transporte marítimo mostram que as exportações de crude venezuelano ultrapassaram um milhão de bpd em março de 2026 — a primeira vez desde setembro de 2025 —, impulsionadas pelo aumento das vendas à Índia e aos países das Caraíbas. Em fevereiro, os embarques para os EUA aumentaram 32%, tendo a PDVSA assinado contratos de fornecimento com os EUA em março de 2026.
Estas medidas demonstram uma mudança no sentido do regresso aos mercados globais de energia e financeiros, marcando um passo na recuperação do petróleo da Venezuela. No entanto, mesmo com um melhor acesso ao mercado, aumentar a produção não é nem imediato nem simples.
“A perturbação geopolítica pode criar oportunidades, mas não resolve os fundamentos. A Venezuela tem os recursos e o interesse do mercado, mas converter isso em crescimento sustentado requer estabilidade, clareza política e execução. Sem isso, o potencial de crescimento permanece limitado», afirma NJ Ayuk, Presidente Executivo da Câmara Africana de Energia.
Em última análise, a questão principal não é se a Venezuela beneficia de preços mais elevados — pois irá beneficiar. A questão mais importante é se este momento se traduz num reposicionamento estrutural ou se permanece mais uma recuperação cíclica impulsionada por choques externos.